A Ciência Cidadã constitui, para o Grupo, uma forma de produzir conhecimento assente na participação, na pluralidade epistemológica e na corresponsabilidade entre ciência e sociedade, traduzindo uma escolha epistemológica e política sobre a natureza do conhecimento científico: quem participa na sua produção, que saberes são reconhecidos como legítimos e que problemas merecem ser investigados. Nesta perspetiva, a ciência é entendida como prática social e situada, atravessada por relações de poder e por diferentes formas de produção, validação e circulação do conhecimento.
Partimos do reconhecimento de que o conhecimento sobre ecossistemas, ciclos naturais, territórios e biodiversidade nunca esteve confinado às instituições científicas. Agricultores, pescadores, comunidades tradicionais, povos indígenas e outros atores sociais têm produzido, acumulado e transmitido saberes fundamentais sobre os ambientes que habitam, embora muitos deles tenham sido historicamente subalternizados ou invisibilizados.
Esta posição implica uma leitura crítica dos modelos de Ciência Cidadã em que a participação se limita à recolha de dados segundo protocolos definidos externamente. Embora estes modelos possam ser cientificamente relevantes, tornam-se insuficientes quando ignoram assimetrias entre investigadores e outros participantes, restringem o seu envolvimento às etapas operacionais da investigação ou reproduzem hierarquias tradicionais sob a aparência de colaboração.
O Grupo inscreve-se, por isso, numa perspetiva de Ciência Cidadã crítica, situada e participativa, assente na pluralidade epistemológica, na justiça cognitiva e numa ética do cuidado das relações. Consentimento, reciprocidade, devolução dos resultados e reconhecimento dos conhecimentos locais, tradicionais e experienciais constituem princípios fundamentais desta abordagem, procurando contrariar formas extrativas de investigação.
A investigação é, assim, concebida não apenas sobre territórios e comunidades, mas com eles. Sempre que os contextos e os objetivos o permitem, as perguntas de investigação, os processos de trabalho e os resultados são construídos colaborativamente, procurando responder a necessidades concretas e gerar impactos que ultrapassem a produção académica, nomeadamente na gestão territorial, na conservação da biodiversidade, na proteção de modos de vida e na afirmação de direitos.
